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Saúde mental: Práticas de cuidado emocional

A pandemia provocou desafios que atravessaram diretamente a vida de todos e de todas. Embora, neste momento, nos encontramos em uma situação totalmente diferente do que vivenciamos no último ano – as aulas presenciais retornaram de forma integral e avançamos com a vacinação em adultos e crianças – os efeitos causados pela pandemia ainda reverberam, em variadas escalas e intensidades, em todos os integrantes que compõem a comunidade escolar.

Dentre os principais efeitos que foram intensificados pela pandemia, podemos especificar a saúde mental como uma das áreas mais fragilizadas e com questões urgentes que ainda ressoam no cotidiano escolar. Como afirma Franciele Cordeiro, coordenadora pedagógica do Colégio COC de Campina Grande do Sul (PR), “o afastamento dos alunos da escola durante o período de pandemia causou muitos prejuízos para os estudantes, não só em relação ao processo de aprendizagem, mas, também, ao desenvolvimento social e emocional”.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo e divulgada no fim de maio deste ano, cerca de 70% dos alunos relataram quadros de depressão ou ansiedade por conta do retorno ao ensino presencial. A pesquisa ouviu 642 mil estudantes de todo o estado de São Paulo.

Nesse sentido, a sensação de acolhimento, de escuta ativa, de segurança emocional e de compartilhamento sobre os sentimentos são características que devem ser potencializadas nesse momento nas escolas. E observamos, cada vez mais, iniciativas de escolas que trabalham em ações, projetos e atividades com foco na saúde emocional.

ESCRITA COMO PROCESSO DE ELABORAÇÃO

No Elite Rede de Ensino, com unidades em alguns estados do país, a equipe psicossocial desenvolve, desde 2021, algumas ações com os alunos e com os colaboradores com foco em questões emocionais. “A saúde mental é um pilar muito importante quando falamos em desenvolvimento de estudantes e, também, sobre alta performance”, afirma Stephanie Iglesias, psicóloga escolar do Elite Rede de Ensino.

Abordando temáticas como entendimento e gestão das emoções, autoconhecimento, reflexões sobre o momento atual, sobre ações e comportamentos, são desenvolvidos diálogos e elaboradas atividades práticas, como a escrita – uma ferramenta muito usada na psicologia, segundo Stephanie. “Ao escrever, o aluno elabora melhor o evento e, também, por conta da vergonha de alguns em se expor. Após essa dinâmica, propomos uma fala, que traz a conscientização ou um debate sobre o tema”, explica a psicóloga. “Na prática, observamos os alunos mais reflexivos sobre si e o seu meio, com mais entendimento sobre situações emocionais, e com melhor compreensão a respeito de como a ansiedade funciona e como eles podem criar estratégias para lidar com ela”, acrescenta.

PODCAST

No Colégio Bandeirantes (SP), com uma interessante alternativa para o cuidado da saúde mental de toda a comunidade, o colégio lançou no último ano o “Podcast MeditaBand”. Carla de Godoy Gennari, professora de Educação Física do Departamento de Educação Física e Esporte, conta que já trabalhava a meditação no colégio desde 2018. E, com o isolamento social imposto pela pandemia, foi idealizada a criação de um canal de podcast, de fácil acesso, disponível nos principais serviços de streaming digital.

“A primeira temporada do MeditaBand foi lançada em maio de 2021 e contou com a narração dos professores em 21 episódios, que trabalhavam técnicas de meditação, foco e atenção plena e continham mensagens positivas versando sobre a crença na força interior e na capacidade de realização, para que a fase de isolamento pudesse de alguma forma ser amenizada e as distâncias diminuídas”, conta Carla.

Segundo a professora, a recepção da comunidade escolar com o podcast foi positiva, lançando uma segunda temporada no final de 2021 com 15 episódios, que contou com a narração de alunos do 6º ano do Ensino Fundamental até o 3º ano do Ensino Médio. “Muitos dos alunos participantes fazem parte da Equipe de Ajuda, grupo que visa promover a convivência positiva na escola, e manifestaram sua gratidão em participar do projeto para ajudar outras pessoas a terem um momento para relaxar”, finaliza.

MUSICALIZAÇÃO

“A música sempre fez parte das vivências na Rede Daltro Educacional, pois entendemos que é a forma mais lúdica de conduzir a rotina escolar e estimular a socialização”, afirma Adriana Tavares Passeio, gestora geral da Educação Infantil da Rede Daltro Educacional. Nesse período de retorno total às aulas presenciais, com o avanço da vacinação em adultos, crianças e adolescentes, a rede de ensino investiu em atividades saudáveis que proporcionassem experiências significativas, momento de diversão e alegria.

De acordo com a gestora, as aulas são ofertadas do berçário até o 5º ano do Ensino Fundamental I, ocorrendo tanto na própria sala de aula da turma como em rodas na parte externa da escola, a fim de que as crianças possam explorar o alcance e a repercussão sonora da própria voz e do próprio corpo. “Como a disciplina faz parte da grade curricular das turmas, semanalmente os alunos realizam atividades diversificadas, explorando diferentes instrumentos, o que aguça a sua percepção sonora, a sensibilidade às diferentes nuances musicais e habilidades rítmicas. As aulas de musicalização da Rede Daltro Educacional buscam estimular a criatividade, capacidade de memorização, concentração e sensibilidade emocional, além de promover o bem-estar com melodias agradáveis e o aperfeiçoamento da coordenação”, explica Adriana.

A recepção dos estudantes com essa atividade foi positiva, apresentando melhoras na comunicação com o outro, na expressão de ideias, reverberando, também, na construção identitária e de autonomia. Além da diversão e de compreenderem a importância do trabalho em cooperação, “no âmbito das emoções, temos percebido que a musicalização tem se mostrado um recurso valioso para ensinar aos pequenos como lidar de maneira saudável com suas emoções, o que tem sido um facilitador para lidarmos com momentos de tristeza ou frustração, decorrentes de quando as suas expectativas não são atingidas”, conclui a gestora.

MOVIMENTO LIV

Pensando em como cuidar dos sentimentos dos alunos e dos professores, sobretudo a partir de um acolhimento, o LIV – Laboratório Inteligência de Vida criou o “Movimento LIV: pela saúde mental nas escolas”, que acontece em diferentes etapas, iniciando com rodas de conversa que oferecem suporte para os educadores. Presente em cerca de 200 escolas, o projeto acontece com grupos de professores da Educação Infantil até o Ensino Médico, em dezoito estados brasileiros, de norte a sul do país.

No primeiro momento de entrada do “Movimento LIV” nas escolas, ocorrem as “Rodas de Acolhimento” com o objetivo de abrir um diálogo especial com psicólogos e pedagogos do LIV para a fala e a escuta do que tem acontecido na comunidade escolar, que lida com a intolerância à frustração e a violência da atual realidade. O modus operandi promove a ampliação do espaço de troca com professores e coordenadores parceiros de todo o Brasil, que encontram abertura para conversar sobre suas vivências e dificuldades e pensar juntos nos caminhos possíveis.

O projeto tem desdobramentos além dos espaços de trocas e construção coletiva: diversos conteúdos são trabalhados em forma de textos e exibição de vídeos com especialistas debatendo o assunto da saúde mental nas escolas, com profissionais que trazem a vivência presencial para a realidade local. E o projeto se amplia com a criação de um guia de com sugestões de práticas para lidar com esse momento, que será distribuído para as escolas e famílias, ainda no segundo semestre de 2022. O projeto ainda tem planos de expansão. Hoje são atendidos 486 educadores e até 2023 pretende ampliar esse número, além de chegar a mais estados. Os resultados desse avanço pelo país farão muito bem para milhares de estudantes, suas famílias e para toda a sociedade. (RP)

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